Trabalho documental "Voltaremos na Gravana"

Photoblog // Tânia Araújo

Espectáculo no Teatro A Barraca a estrear brevemente. Fotografia do cartaz de minha autoria.
Hoje parece que estava novamente a fotografar esta cena. Passei perto desta rua e lá estavam eles a fazer o seu trabalho. Ouvi do cimo das árvores, "Jovem, então hoje não trazes a máquina", sorri para eles ao mesmo tempo que faziam um gesto de uma máquina fotográfia a carregar no botão disparador.
Disparei com os olhos...foi bom voltar a encontrar estás pessoas e perceber que faço parte do seu quotidiano...

Voltei a ir para S. Tomé, desta vez em trabalho. Estive um mês a viver noutro paìs do qual já me tinha adaptado à nova rotina. Levantar às 5h:30m da manhã, muito calor, dormir com rede mosquiteira, não beber àgua da torneira e ter cuidado com os mosquitos. Mas houve outras coisas, ao qual me habituei, novas para mim...ter cães em casa.
Sempre evitei de ter animais domésticos, são uma prisão, temos que tomar conta deles e dar-lhes atenção. O que acontece, quando nos habituamos a tê-los "obrigatóriamente" é que são eles que nos dão atenção e nos fazem companhia.
Era o caso da Scooby, mal abria a janela lá estava ela a olhar para mim, mal entrava em casa corria como louca, saltava para cima de mim e sujava-me toda, ao ponto do qual quando isso não acontecia eu já ficava preocupada.
A Scooby era a cadela da vizinha que foi uns tempos viver para a casa amarela onde fiquei instalada em S. Tomé. Em pequena parecia um cão por isso lhe puseram este nome.
Por incrível que pareça, tenho uma fotografia dela, pois eu e o Rocha temos um grave problema como fotógrafos nunca fotografamos as pessoas que conhecemos, gostamos, encontramos, ficam na nossa memória fotográfica, as lentes são os olhos, o fotograma a memória.
Voltei para Portugal, sinto-me vazia, todos os amigos estão a ir embora... S. Tomé ainda é um país virgem, genuíno...tenho saudades...
Na madrugada de dia 12 de Janeiro, soube que a Casa Amarela foi assaltada na noite que fomos embora e que a Scooby e o Sul, o outro cão da casa foram mortos. Nessa mesma noite fui assaltada em casa a dormir...
Os valores estão a morrer, as pessoas a fugir, eu e o mundo estamos tristes.
Fica no meu coração a Scooby, que protegia a casa como bom cão de guarda, que nos acarinhava sempre que podia, que nos mimava...









Amigo...amigo... foi a frase que diariamente me acompanhou ao longo desta magnífica e ao mesmo tempo dolorosa viagem que fiz à Ilha de S. Tomé.
Além desta frase houve outras como "Branca...branca..." ou "Doce...doce...dá-me doce amigo", são crianças maravilhosas que foram bombardeadas por doces, dinheiro e outras coisas que os levam a quando encontram um turista a pedir.
A viagem foi magnífica pela aprendizagem que tive ao longo de 15 dias na selva a valorizar todos os minutos, os sons, as plantas, o sol, a noite a comida que tinha, tudo...
A parte dolorosa foi o encontrar um povo ainda oprimido pelo passado, com dificuldades alfabéticas, com dificuldades de integração, pouco empreendedores. Um povo perdido no oceano. Com o passar dos dias percebemos que dentro da sua desorganização eles organizam-se à sua maneira, ao qual nós não estamos habituados. São pacíficos e amigos com o passar do tempo, pois inicialmente não dão qualquer confiança.
Quero voltar por eles, pelo ar que se respira, pela natureza, pelo côncon, pelo búzio do mato, pela omolete com ervas micôcô, pela piroga, pelas roças, pela barriga de peixe no contentor, pelos coqueiros, por querer dar algo que possa ajudar no futuro de tantas crianças que nascem sem rumo.


Este projecto envolve ex-alunos dos Cursos Avançados e do Núcleo de Fotografia da Oficina de Fotografia, fotógrafos e população local numa exploração dos espaços, vivências e memórias da freguesia de Marvila, pretendendo – ao mesmo tempo que fomenta a continuidade e o desenvolvimento do trabalho fotográfico de ex-alunos da Oficina - possibilitar à população local o contacto com a fotografia, apresentar e afirmar a fotografia enquanto forma de observação e exploração do quotidiano, desenvolver a expressão artística e cultural através da fotografia, aperceber e fomentar redes sociais, permitindo uma melhor integração da Oficina de Fotografia no tecido social em que se insere e o estabelecimento de pontes para posteriores actuações.